Contos, crônicas e novelas.
terça-feira, agosto 28, 2007
Breve peça estilística cuja história é difícil de discernir
sexta-feira, outubro 13, 2006
Imagem x-x
Num canto da cidade, sob chuva fina, luzes estourando sem muita lógica, sombras cambaleantes, ronronares cadenciados e nervosos de gente simplesmente indo, enormes pés inchados dentro de sapatos gastos, sob um burburinho – uma camada - de homens de chapéus engraçados reclamando do passado e de mulheres apertadas em tendências meeiras, risos rarefeitos ecoando crianças que não vão aparecer tão cedo, sob a incapacidade de olhar além da reta e daquela coisa que vai sem vir e que continua raspando a garganta nos momentos mais impróprios (tão comum quanto própria ou inconsolável), sob aquela outra coisa que passa pelo canto da órbita, que impregna nosso dia e que só vai embora quando enfim aparece de novo, uma mancha perfeitamente construída de mobilidade não mensurável, de peso cálido nos pescoços com bordas preenchidas de gordura antiga que sujam apenas travesseiros tecidos manualmente e sem muito vigor por alguma preta velha – pobre, preta; sob o anonimato que qualquer canto da cidade oferece, quatro baratas se aglomeram, descompromissadas com a formalidade que a reunião prescinde e, por um tipo de inter-percepção, nada se cobram.
sábado, agosto 26, 2006
Quatro fotos e meia
Suportando o viaduto, um pilar. Nele, um homem bate a bola laranja, movendo-se em forma de sombra colorida. Pula e dá um grito grave antes da bola voltar às suas mãos, vencendo um pequeno desafio, um pequeno desafio de cada vez – ele há de chegar lá, sendo ‘lá’ um lugar que não pode ser observado, apenas inquirido.
O pilar é um espelho de concreto, ele vê-se jogando a bola para si mesmo, ouve a si mesmo gritar. Joga com alguém que está ali, alguém que ecoa do preenchimento.
2.
O retângulo está suspenso sobre ele, forma construída que se alonga e se afina para trás e acima do homem, bifurcando-se em duas tiras, duas asas que terminam entre edifícios, na curva de um globo moldado.
Resistindo à eletricidade e à estática, à luz, pisadas e água, às idas e voltas de sua própria matéria, às atmosferas, ele flutua – com pequenas marcas que se anulam, fechadas por outros acidentes, protegido da mutabilidade pelo estrondo formal.
Quem dirá um dia que ele não foi um viaduto? Nunca foi nada senão ele, nunca se tornará nada senão ele. Sua matéria não lançará esporos. É estéril, alheio à reprodução, não pode compartilhar sequer dessa maneira monstruosa de transformação, não existem vestígios de sua construção.
É um dado, um dado jogado.
Jogado por quem? Para o homem com a bola laranja, está como um deus: camuflado, mudo, estático e, ainda assim, uma possibilidade confiável de ouvir o próprio pensamento. Um som que não pertence a ele, algo – essa é a palavra, ‘algo’ – que faz as vezes de resposta, a cada grito e baque da bola.
Poucos elementos cotidianos se aproximam tanto da verdade quanto as lâminas voadoras e os pés arvóreos de um viaduto.
3.
É preciso ouvir. Cada baque e cada grito. O homem ridículo, de bermuda e camiseta regata, inacreditavelmente vulgar, continua usando a bola laranja, sozinho, pulando e dando gritos graves. À sua esquerda, um bar. Uma figura de papelão com os olhos furados está colocada no balcão, escorregando a medidas improváveis, caindo lentamente. Ninguém da administração ali, ninguém para tomar conta. Uma mulher e um homem sentados nas cadeiras postas na calçada observam o viaduto.
4.
Aos olhos dos dois, as asas parecem ainda mais longas, mais finas ao final, duas pontas, duas agulhas, perfurando e rasgando. Sobre elas, vindo do horizonte vermelho-claro, como que partes desprendendo-se das bordas quadráticas negras, como que vidas recém descobertas, um grupo de animais. Os quatro cães, enormes e magros, andando juntos, formam uma sombra só. A sombra de um monstro mitológico sob a luz de mercúrio, de um amontoado de corpos com mais cabeças do que patas, com mais sombra do que corpo. De uma degeneração.
5.
Parecem pequenos cavalos traiçoeiros, com carne entre os dentes e cascos trincados. Dentro de um deles, 15 fetos. Suas formas - relevos incipientes esculpidos na carne - são quase visíveis sob o couro fino, mal recoberto de pêlos.
Ouvem as batidas. Ouvem como o homem não as ouve. E sonham, com o saber de uma matilha, terem encontrado caça.
segunda-feira, maio 08, 2006
Uma cachorrinha e sua dona sozinhas em um domingo de sol
*Excerto auto-biográfico
A cachorrinha aproxima-se, lenta, andando no corredor curto de ardósia. Ela é pequena, tem passos cambaleantes, equilibrando um corpo roliço e negro sobre patas que parecem usar luvas de pêlo dourado, cujas garras fazem barulho solitário ao tocar a pedra. No chão do corredor do apartamento, estirada de bruços, com os braços abertos, está sua dona. A velha geme com dificuldade, longos suspiros sob roupas confortáveis de algodão. As persianas dos quartos filtram luz em faixas finas.
Cheira suas costelas e olha a sala vazia à frente. Em todo lugar, a marca da dedicação e do detalhe, cenário em cores frias. Dirige-se aos cabelos pintados de loiro, muito ralos, lambe-os, gruda poucos fios à pele arroxeada. Não há nada de diferente com a dona: ela está sozinha, deitada no corredor de seu apartamento. A cachorrinha anda até a cozinha, examina um canto do lugar, encosta em uma bolinha colorida, vira-se. Ouve o gemido da dona e toma um pouco de água. Vai até ela de novo, lambe um pouco do suor de seu pescoço e deita-se, encostando-se à carne ofegante. Ela quer dizer algo, a cachorrinha é toda ouvidos, mas apenas sussuros sem fôlego escorrem em solavancos.
Ninguém em lugar nenhum. A velha arfa ainda mais, bolhas de saliva formam-se em seus lábios. A cachorrinha olha para o corpo no chão e depois procura alguém pelos quartos, se estranha em espelhos, observa as camas altas e passa por baixo delas, procura algo no ar, faz uma rápida corrida até o banheiro, debruça-se sobre a privada, entra no box, procura. Encontra a enorme árvore vergando sob o vento, o movimento vegetal dezenas de metros abaixo. Ninguém em lugar nenhum, todos os cômodos esperando.
Aproxima-se, lenta, e deita-se de frente, no mesmo nível da dona. A cachorrinha, que nunca fora capaz de latir, começa a uivar, franzina, olhando as pálpebras para sempre pintadas de negro da velha, dando voz fina e irritante a seu apartamento impecavelmente morto, ao exílio sem história que ela condenou-se ao construir uma fortaleza de coisas - mobília recém tardia de memórias encenadas e encenadas e encenadas contra o esquecimento. Depois, deitado, estático, o animal urina.
sexta-feira, abril 14, 2006
Imagem
Depois da placa – muito depois da placa - existe um carrinho de bebê colorido, caído contra uma parede. A parede parece ser um muro, não parte de uma construção. Não é possível entender o que a parede cercearia. Não é possível entender o que existe além da parede. Não são permitidos pontos de vista que possibilitem dizer com certeza se a parede faz parte de uma construção ou se ela é parte de um muro, muito menos se ela é todo o muro ou se um dia ela teve portas e janelas, que podem ter sido lacradas com cimentos e pintadas com cal.
No chão, entre o carrinho de bebê e a parede amarronzada existem pequenas casas. As pequenas casas são feitas de pequenos tijolos, pintadas de amarelo. Os pequenos telhados são de metal dobrado. As quatro casas, uma virada de frente para a outra, criam um pequeno condomínio. Plástico verde imita um gramado central. As casas têm cercadinhos de canudos rajados de vermelho. Parecem a maquete de um desenho infantil.
No gramado central, dois sapos. A luz do poste não os alcança: estão sob a sombra do carrinho de bebê. Um dos sapos tem um pequeno chapéu branco de caubói preso por um barbante na cabeça. Ele abre a boca, que tem poucos dentes estragados artificiais, implantes. Gargalha uma gargalhada que não se relaciona a uma gargalhada humana. É uma gargalhada de bicho. O outro, nu, observa e sorri. Ecos são ouvidos dentro das pequenas casas, de onde algo se esgueira.