Contos, crônicas e novelas.

terça-feira, abril 11, 2006

Gerônimo

Diziam a Goyathlay que os animais grandes, as aranhas e escorpiões, a areia e as sombras das montanhas eram ele. Que aquilo que sentia como limites de si mesmo – a pele que tocava, as linhas que encontrava no horizonte – eram uma mentira causada pelo sol e pela chuva, um sonho lúcido. Não um sonho lúcido, sejamos precisos: era o outro mundo, ligado por linhas finas e não visíveis àquele no qual as coisas são sonhadas. Tanto neste como naquele, Goyathlay deveria estar simultaneamente (pois sem um não existe o outro e sem os dois não existe Goyathlay). Algo opaco, fora de seu alcance: estar por inteiro em algum dos dois. Ainda que os mundos fossem só dele, nunca conheceria todos seus recantos.

Ele era latifundiário de terras fantásticas.

O Ancião cego, tateando no quarto em que sempre vivera, falava que por Goyathlay nãoconhecer todas as peles e armas deste e daquele mundo, nunca se veria no que vivia e no que não vivia neste de cá, assim como nunca vibraria como os sons que ouvia no escuro da cabana, um menino escondendo-se de raios que eram destroços furiosos dele mesmo, choramingando como monstros sobre algo que lhes escapava ao entendimento.

E por ser incapaz de ver a origem das imagens formadas no enorme espelho multifocal sem portas ou janelas dentro do qual se inseria e do qual não era possível sair, ele sempre estaria em guerra consigo mesmo: matar, comer e plantar, estuprar a si, produzir descendentes clônicos. Goyathlay estava condenado a ser uma besta em todos os detalhes, a cada pegada causada e a cada galho quebrado. Cada vez que calcanheava um cavalo, era seu o dorso violentado. O alimento partido pelos dentes eram dedos triturados. O ar que soprava. Tudo era ele e tudo o que ele fazia causava dor muda a ele mesmo.

As linhas que ligavam os mundos, o Ancião dizia, estavam embutidas na mulher, no homem e nos pequenos. Eles eram os proprietários das terras vizinhas, e não parte das terras de Goyathlay. Eles carregavam o futuro e o passado deles mesmos e dos outros, uma vez que, ao estarem ali, davam aos seus espelhos outros reflexos. Sem eles ali, não era possível saber que ele mesmo estava ali, muito menos cogitar a possibilidade de que nem tudo estava ali. Sem o Ancião, ninguém nunca contaria a Goyathlay que Goyathlay era o tudo e, ao mesmo tempo, incapaz de ver sua totalidade.

Goyathlay só poderia ver o que de fato estava ao seu alcance quando – quando? – todas essas dores se reunissem em uma forma de coisa massiva e suave (um pássaro emplumado de olhos humanos, do tamanho de tudo o que ele já havia visto) e o retirasse de si. Essa era a morte.

Na cabana, a mulher não tinha mais rosto e os dois dos três filhos haviam perdido membros (um braço, metade de uma perna). O outro filho havia se transformado em duas coisas que pareciam troncos. Goyathlay mexeu na carne, enfiou dedos: não havia linha alguma. Sentiu-se dolorido e despedaçado. Entendeu que o motivo para tanto era que não apenas algumas linhas de conexão muito próximas haviam sido perdidas como também fora incapaz de encontrá-las.

Era um rastreador, um apache rastreador. Ouvia passadas a quilômetros de distância e entendia a viscosidade de capim pisado. Bastava olhar para si, para alguma face do espelho, para temer o que os animais temiam. Mas ali sentiu um calor e um cheiro que desconhecia.

Sorriu, bateu com a palma da mão no antebraço. Pisou firme o pé. Ouvira falar sobre os fantasmas que andavam por aquelas terras. Eram da cor de areia, eram feitos de areia e de couro velho até na cabeça, tinham cabelo na cara, carregavam sombras de fogo.

Até seu fim, Goyathlay havia de persegui-los, de encontrá-los, de desejá-los. Eram a morte vinda do outro mundo, o segredo cuja pergunta nunca havia sido feita: o cavalo branco que cavalgara em sonhos até então esquecidos.

3 comentários:

Gabriel Affonso-Morales disse...

Bonito pra caralho isso...
Há Goyathlay em cada um?

JC Vieira disse...

Em cada um de nós?

Anônimo disse...

Não, não... a sua explicação já me valeu... mas... ainda me perco no cavalo braco. Era raro? Ou o que?